Leis bancárias – Valor Econômico

1 08 2008
   
Há séculos existem leis que norteiam a boa prática bancária. A primeira diz: “um faz e outro confere”; a explicação é que a atividade dos bancos é altamente vulnerável a fraudes, erros de avaliação, pressões e distrações. Há versões mais modernas da lei, chamadas de controles internos, segregação de funções, auditoria, fiscalização e supervisão. Apesar das novas nomenclaturas e da sofisticação das operações, a lei na sua versão primitiva vigora para bancos individualmente e para sistemas financeiros. Se a lei tivesse sido observada com rigor, a crise americana teria sido evitada. 

A origem dos problemas lá está em empréstimos imobiliários concedidos a mutuários em condições incompatíveis com sua capacidade de pagamento. A demora em verificar os detalhes dos créditos permitiu um crescimento exponencial dessas operações sem lastro real. Era uma riqueza falsa e o valor das perdas será consideravelmente superior ao dos empréstimos predatórios que originaram a quebra de confiança. Centenas de bilhões de dólares do governo estão sendo gastos e milhões de norte-americanos estão perdendo suas casas e emprego.

 

A segunda lei é: “tempo é dinheiro”. A prescrição é clara: complicações têm que ser antecipadas e rapidamente enfrentadas. Ao primeiro sinal de deterioração na solvência de um tomador, deve-se cobrar o que é possível, reduzir seus limites de crédito e aumentar as garantias. Não se deve colocar dinheiro bom em um negócio ruim. Por um lado, problemas, quando deixados por si só, tendem a piorar; e por outro, quem espera para cobrar, pode ficar sem nada. A capacidade de reagir com rapidez é basal para a sobrevivência de um banco.

 

O ponto é que, em determinadas circunstâncias, a aplicação da segunda lei gera resultados perversos. Em situações de deterioração da confiança, a atuação de cada banco, tentando melhorar a sua condição, piora a do conjunto. Como todos cortam simultaneamente as linhas de crédito, há um enxugamento no mercado, e tomadores solventes, sem a redução da oferta de recursos, ficam inadimplentes por um problema de liquidez. O temor coletivo da piora da capacidade de pagamento de devedores é uma profecia que se auto-realiza.

 

 

Os problemas nos subprimes, circunscrito a um segmento do mercado imobiliário, se propagaram a todo o sistema bancário; houve um aperto em todas as carteiras de financiamentos. Limites foram reduzidos, empréstimos deixaram de ser rolados e os critérios de concessão ficaram mais rígidos. A expansão do crédito, que foi um dos motores de expansão da economia norte-americana, se transformou em seu freio. O círculo virtuoso tornou-se vicioso, com a crise de confiança.

 

A prescrição, para a autoridade monetária, é a aplicação da terceira lei, que preceitua a injeção de altas doses de confiança no sistema bancário num cenário de incerteza. É um princípio consolidado na literatura, na prevenção e administração de crises financeiras. É a maneira como o atual presidente do banco central americano, o Fed, Ben Bernanke, está enfrentando a crise. Além de melhorar a supervisão, para evitar que os problemas se repitam, aplicou quantidades abundantes de confiança no sistema financeiro, reduzindo a taxa de juros e aumentando a liquidez dos bancos com linhas de crédito volumosas. A ação está sendo de evitar o pior.

 

 

Atualmente, o Brasil vive um bom momento. A economia está crescendo, os termos de troca estão em seu melhor patamar histórico: os preços das exportações estão no seu ponto mais alto e o das importações, baixos. O PIB aumentou 5,4% em 2007 e as projeções são de uma expansão da ordem de 4,7%, este ano. Uma parte considerável do crescimento foi resultado do incremento do crédito, um propulsor da economia que aumentou o consumo e o investimento, gerando um círculo virtuoso. O crédito continua se expandindo a taxas vigorosas e a inadimplência está sob controle.

 

 

Entretanto, há sinais que chamam a atenção. A capacidade de pagamento dos tomadores está encolhendo, os juros básicos estão subindo, a inflação diminui a renda real, os limites de endividamento estão se estreitando, a expectativa de crescimento é menor e os critérios de concessão estão mais rígidos. O crédito está ficando mais custoso – na média encareceu 4,2% este ano – e a sua composição está deteriorando. Enquanto o crédito total se expandiu 14% em 2008, a conta garantida, que é uma linha emergencial, aumentou 17,9%, e o cheque-especial para pessoa física cresceu 21,2%. Os custos dessas duas linhas elevaram-se em 10% e 21% respectivamente, apenas no primeiro semestre. São números que merecem atenção.

 

 

A prescrição para uma situação como esta é clara. Seguir a primeira e a terceira lei, ou seja, analisar a qualidade da concessão de créditos – sua sustentabilidade, voltados para investimentos, compatíveis com a renda etc. – evitando que uma pequena parcela ruim afete o todo, e injetar confiança no sistema. Entretanto, a atuação é contrária à prescrição: os compulsórios foram aumentados e atingiram a marca recorde de R$ 241 bilhões (8,2% do PIB!), os maiores do mundo, e a tributação sobre operações de crédito foi elevada. É uma política de aumentar spreads, em vez de diminuí-los. É o que mostram os números.

 

Está se adotando uma política antiinflacionária de repressão creditícia. É um despropósito. O correto, num quadro como o atual, é reduzir gastos públicos, avançar nas reformas para expandir a oferta agregada e complementar, e não substituir, com um aperto monetário. Colocar o controle da inflação apenas nos juros é um erro; colocar quase todo o peso só no crédito é um despautério. É oportuno destacar que os canais de transmissão da política monetária, além do crédito, também incluem o câmbio, as expectativas, a riqueza, os estoques e as decisões de poupar e investir. Uma reversão no círculo virtuoso do crédito pode causar uma estagnação com inflação, em vez de sua redução. Para que correr riscos? Por Roberto Luis Troster (Sócio da Integral Trust)

Fonte: Jornal Valor Econômico – 31/7/2008


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